No começo era só um simples projeto de UX de loja virtual. Um projeto enxuto, direto, daqueles que num feriado prolongado com café forte e fone de ouvido virou uma grande ideia inovadora e diferente de qualquer outra loja do segmento. O projeto de experiência ficou tão bom que a mesma empresa (na verdade um freelancer com CNPJ) foi contratada para desenvolver a programação e interface.
O escopo era claro, o cliente confiava, o dinheiro entrou no começo, ou seja, todos os elementos do desastre estavam postos.
O tempo passou. O projeto, não.
A empresa formada por um só profissional multitarefa excepcional, de muita fé e movido a cafeína, seguiu tocando a vida enquanto o projeto dormia sob a montanha dos "vou retomar semana que vem". Vieram outras demandas, vieram problemas, veio o Burnout e os ataques de ansiedades, e o super profissional colapsou; vieram os antidepressivos e ansiolíticos que deixam sem foco, sem ritmo, sem prioridade e sem vontade.
O projeto? Continuava ali, quieto, esperando. Paciente, como só os trabalhos pagos adiantado conseguem ser. O cliente? Resumido a um emoji enviado meses depois da ausência de resposta: 🤡
Não era uma cobrança. Era o silêncio transformado em sarcasmo. A mensagem mais recente do cliente era de um palhaço solitário flutuando no WhatsApp, como um aviso silencioso de que a paciência tem limite, mas o histórico de conversa não.
O tratamento termina e a sensação é que só foram longas férias, nenhum progresso efetivo. Quase um ano parado e o profissional está quebrado, de diversas maneiras. Saúde emocional em recuperação, conta bancária no negativo, rotina familiar dominada pelos filhos pequenos. Não era questão de má vontade, era pura física, o tempo exigido para salvar o projeto não cabia dentro da vida que restava.
Mas ignorar o cliente também não cabia mais. Era hora da mensagem.
Só que como você pede mais tempo pra entregar algo com dois anos de atraso?Como explicar que o projeto não andou porque o corpo e a mente desandaram juntos? Que a grana já foi, mas a energia ainda não voltou?
Simples. Você conta a verdade.
Sem teatrinho, sem desculpa criativa, sem cronograma mágico. Diz que falhou, que sumiu, que travou, e que quer retomar, mas só quando der pra fazer direito, sem falhar novamente. Se o cliente topar, ótimo. Se não topar, negocia-se a devolução dos valores pagos e bola pra frente... vai doer, mas não tanto quanto seguir fugindo de um emoji.
Todo freelancer já teve um projeto fantasma (ou vários). Um que virou lenda pessoal (ou vários). E não é sempre culpa da falta de conhecimento, experiência, método ou organização. Às vezes é só a vida passando por cima com as rodas pesadas da realidade, enquanto o Trello fica lá, intacto, como um quadro memorial de intenções não cumpridas.
A verdade? Projetos não atrasam sozinhos e nem porque o freelancer quer deixar lá ou prioriza outros projetos. Eles são o espelho da condição física, mental e financeira. E o mercado precisa parar de acreditar que o freelancer é uma API humana com SLA garantido. Às vezes, a entrega mais profissional que existe é admitir que não dá.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 40% dos profissionais autônomos enfrentam episódios de esgotamento emocional severo ao longo da carreira. E diferente do trabalhador CLT ou funcionários públicos concursados, o freelancer não tem férias pagas, plano de saúde, nem afastamento autorizado por ninguém além do próprio colapso.
Pedir pausa num sistema que exige presença constante é visto como falha, quando, na verdade, é o único jeito de seguir inteiro.
Nenhum sistema sobrevive sem manutenção preventiva. Nenhum humano também.
O resto é emoji.
🧠 O que aprendemos com isso:
- Saúde mental não é luxo de CLT. É parte invisível da infraestrutura profissional e ignorá-la cobra um preço alto, principalmente para autônomos, que vivem de si mesmo. Ser honesto sobre limitações é mais digno do que manter o cliente no limbo. Até um "não consigo agora" vale mais do que o silêncio.
- Freelancer também precisa criar marcos. Mesmo projetos que parecem curtos merecem checkpoints. O cliente deve cobrar estes marcos do desenvolvimentos (ou milestones) desde o início e perguntar sobre o andamento pelo menos uma vez, na metade do prazo. Cliente que não cobra, também contribui para o atraso.
- Pagar tudo de uma vez é um convite ao desaparecimento. O ideal é adiantar uma parte relevante no início, garantir fôlego financeiro pro profissional e negociar o resto conforme entregas reais, de acordo com os marcos previamente definidos. Segurança pra ambos.
- Se o projeto virou lenda urbana, alguém precisa quebrar o feitiço. E isso começa com uma conversa. Mesmo que seja só pra admitir que travou.


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