Existe um momento na vida de qualquer especialista de tecnologia em que ele olha para a tela, suspira fundo e se pergunta: em que momento deixamos que um algoritmo administrasse coisas que nem o ser humano administra direito? Esse momento chega quando até o cliente percebe que seu sistema virou o Pluribus... isso mesmo, a série da Apple TV.
De repente, o chatbot do atendimento, alimentado com uma "automação simples", começa a responder dúvidas técnicas com pensamentos de filósofo em Modo Coach: ON. O usuário pergunta como trocar a senha; o bot responde que "nenhum homem se banha duas vezes na mesma conta". A pessoa pede nota fiscal; o robô devolve que "a virtude está em desistir do supérfluo".
A culpa, claro, recai sobre a IA, essa entidade mitológica que aparentemente vive rondando servidores à noite para fazer pegadinhas. Mas, basta investigar um pouco, para o misticismo evaporar e descobrir que o dev da empresa se empolgou com algum tutorial do YouTube e integrou uma API de geração de texto experimental sem configurar limites de contexto. O resultado? Para o pesadelo do suporte, um bot que mistura documentação de produto com reflexões clássicas sobre a condição humana.
Outra situação interessante é quando o cliente menciona que o sistema está "agindo de forma suspeita". Quando alguém descreve software como um criminoso, você já sabe que a coisa saiu completamente de controle. Ele explica que o sistema começou a reclassificar clientes "do nada". Do nada, claro, significa "do jeito que alguém programou sem pensar nas consequências".
É nesse ponto que a comparação com Pluribus vira óbvia. A série nunca foi sátira da IA; é sátira do entusiasmo irresponsável do ser humano moderno. Nós adoramos colocar máquinas para fazer aquilo que não queremos revisitar, como processos confusos, dados desorganizados, decisões repetitivas que ninguém quer assumir. E depois estranhamos quando elas seguem exatamente essa lógica torta.
O humano comum, claro, entra em pânico. Imagina que o sistema está ganhando consciência, mas, sejamos sinceros, se sistemas corporativos fossem conscientes, a primeira coisa que fariam seria pedir demissão.
Para reestabelecer a ordem, bastam alguns ajustes nos parâmetros, removendo o existencialismo do sistema, delimitando o que pode ou não pode fazer e revisando regras que, por algum motivo insondável, foram ativadas por padrão. E tudo volta ao normal. Ou pelo menos àquela versão de "normal" que gestores humanos juram que existe.
O mais curioso, porém, é observar a empresa depois da correção. Os funcionários começaram a brincar dizendo "não interage demais com o sistema senão ele te pede em casamento". De certa forma, a "automação acidental" vira espelho comportamental. É aí que Pluribus faz todo sentido. A série não critica a IA como monstro tecnológico, mas como espelho distorcido, só que o distorcido somos nós. As máquinas exageram nossas escolhas, nossos atalhos e nossa mania compensatória de transformar tudo em métrica. Ou seja, elas apenas amplificam essa irracionalidade travestida de produtividade.
"No fundo, a gente só quer que a tecnologia trabalhe e não reclame", diz o cliente, dono do sistema. Uma frase simples, mas que resume uma grande maioria dos gestores desde 1995: decisões feitas com convicção… e nenhum contexto. Nada disso começou com IA; muitos executam esse estilo de gestão desde antes da internet discada. Mas não cabe a um especialista em tecnologia aprofundar isso, afinal, consultoria é também saber quando não jogar sal em ferida aberta.
No fim, o algoritmo só cumpre instruções que ninguém parou para pensar. Tal como Pluribus: uma caricatura tão precisa da lógica tecnológica que parece exagero… até o sistema decidir que o CEO tem "baixa produtividade" e sugerir substituição. No fundo, a tecnologia não é irônica. Ela só é literal demais para um mundo que se leva sério demais.
🧠 O que aprendemos com isso
- Algoritmos não entendem contexto, apenas regras. Se a regra permite, ele executa. Mesmo que isso transforme seu gerente financeiro em lead perdido. Uma instrução do tipo "não alucine" pode ajudar, mas não é ela que vai resolver as falhas do modelo administrativo.
- Automação sem supervisão vira ficção científica instantânea. E nunca aquela ficção elegante. Sempre a que envolve caos administrativo. As ferramentas inteligentes amplificam comportamentos humanos, se o processo é torto, a máquina devolve torto em alta definição.
- Nunca subestime o poder destrutivo de um dev entusiasmado. Principalmente quando ele descobre APIs novas recomendadas por algum guru do YouTube.



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