Fulano já tinha visto de tudo na internet, mas sempre achava espaço para se surpreender, afinal, a internet é como aquele amigo que chega na festa com histórias maravilhosas de negócios lucrativos, mas no final diz que esqueceu a carteira. Numa manhã, enquanto tomava café e pensava se o gato estava planejando dominá-lo, surgiu o anúncio no Instagram: "A oportunidade que você esperou por toda a sua vida profissional".
O algoritmo, sempre emocionado, entregou o anúncio com a precisão de quem acha que conhece seu histórico melhor que você mesmo. Fulano clicou, só para saber qual era o golpe da vez.
A página carregou e, como não poderia deixar de ser, apareceu a estrutura clássica do milagre digital: uma landing page com um vídeo de mais de cinco minutos no topo e nenhuma informação adicional antes de terminar de assistir até o fim.
Fulano já conhecia o truque (que funciona muito bem!). São funis de retenção que utilizam a escassez de informação, bloqueando qualquer detalhe relevante e só liberando depois que o visitante assiste o vídeo inteiro. Essa técnica pressupõe que, se a pessoa não souber nada, ela vai ficar, pela simples esperança de descobrir algo útil. Isso explora o gatilho mental de que valorizamos mais o que é raro ou de acesso limitado.
Esses funis funcionam como fliperamas emocionais. Se o apresentador conseguir te fisgar no início, ele vai alimentando sua emoção e interesse, demonstrando autoridade do autor ou da ferramenta, esbanjando cifras financeiras, deixando claro que você fez errado a sua vida inteira, contando como o produto ou serviço deveria ter um valor altíssimo, "mas pode ser seu por uma fração disso" (sem revelar o valor), mostrando clientes de sucesso como provas sociais e surfando pela curva de emoção até dar a machadada final (o preço ou o golpe).
Todo vídeo desse tipo segue um ritual quase religioso, onde no primeiro minuto vem a promessa, a mudança de vida, a "nova forma de trabalhar". No segundo bloco a desvalorização do modelo tradicional, afirmando que tudo o que você faz hoje é antiquado, cansativo e ineficiente. Seus esforços? Bobagem. "A nova era chegou".
No terceiro ato, aquela história pessoal emocionante em que o mentor quase desistiu, depois veio a virada, a descoberta acidental de um método secreto que aparentemente ninguém no universo percebeu.
Depoimentos são o clímax. Pessoas sorrindo segurando coisas. Vozes dizendo "funciona mesmo", "eu duvidava, mas agora minha vida mudou", "eu vendia balinhas na rua e agora faturo mais de 12 mil por mês".
Aí vem uma queda dramática, porque essa oportunidade não serve para todo mundo. O gatilho clássico da exclusividade. Uma oportunidade para poucos, quase uma ordem mística. Você foi escolhido a dedo, não por um refinamento de público do algoritmo de anúncios da rede social.
No final, o botão brilhante aparece, convidando à ação. Contador de número de vagas restantes. Relógio com poucos minutos para terminar a oferta. "Apenas hoje.", "Apenas agora.". Porque a escassez move mais que a curiosidade.
Fulano assistiu tudo com sua habitual paciência irônica. No final, o vídeo finalmente revelou o produto. Ou programa. Ou método. Ou ferramenta. Ou parceria… Seja lá o que fosse. Nada muito concreto, mas com promessas suficientes para abastecer um bairro.
A proposta, envolta numa névoa poética, era de você pagar por algo e, em troca, receberia oportunidades. Não especificavam exatamente o quê, nem como, nem por quais critérios, mas garantiam que eram oportunidades exclusivas demais para listar na página.
Fulano riu. Quando a página não explica o que está vendendo, mas explica por dez minutos por que você precisa comprar, é sempre um sinal interessante.
Lembrou de outros modelos que já tinha encontrado ao longo da vida digital. Programas que juravam formar especialistas em tempo recorde. Redes que prometiam "clientes prontos para te contratar". Sistemas que se vendiam como "parceiros estratégicos", mas que funcionavam como vitrines de leads genéricos e o "parceiro" vira um vendedor do produto para um lead gélico de topo de funil. Todos com o mesmo aroma de urgência artificial, exclusividade teatral e uma pitada de "apenas para quem não questiona demais".
Era a mesma estrutura de tantos marketplaces de serviço por aí, mas com maquiagem futurista e narrativa emocional. Fulano já tinha visto versões com design minimalista, com trilha épica, com atores sorridentes, com gráficos animados. A essência era idêntica: o visitante paga, o fornecedor recebe, e o restante depende do humor cósmico.
Ele fechou a página e respirou fundo. Aquele vídeo não era golpe, tampouco mentira, era só o velho marketing esperando alguém impressionável o bastante para preencher as lacunas com esperança.
Muitos usam essa estratégia para vender algo gratuito ou por um valor simbólico, apenas para custeia parte do investimento em Ads, abrindo espaço para upsells de valores absurdos. Outros preferem o truque do preço hiperinflado, "descontado" para um valor que ainda assim não faz sentido. Há também quem venda aquilo que ninguém realmente quer comprar, implantando uma necessidade artificial em pessoas que só estavam entediadas, e que vão se arrepender de ter comprado. No fim, essas ofertas que dependem de curvas emocionais costumam compensar a falta de substância com storytelling, e miram, sobretudo, quem anda com baixa autoestima ou decepcionado com a vida.
A verdade é que anúncios raramente mentem diretamente; apenas contam histórias filtradas. E modelos sérios não precisam se esconder atrás de vídeos longos, nem vestir urgência artificial de oportunidades que expiram à meia-noite.
Fulano levantou, serviu mais café e concluiu que as melhores oportunidades são sempre as que não precisam gritar. E que o gato, no fim, só estava com fome.
🧠 O que aprendemos com isso:
- Quanto mais informação uma página esconde atrás de um vídeo, mais ela quer controlar sua percepção.
- Funis emocionais, escassez, exclusividade e outros gatilhos mentais funcionam, mas não substituem clareza, só disfarçam a falta dela.
- Propostas realmente boas não precisam de urgência artificial.
- Se a promessa parece universal demais, provavelmente é genérica demais.



Deixar um comentário