Lembra quando o funil de vendas era uma metáfora simples? Um Trello ou desenho tosco em um quadro branco, com atrair, conquistar, vender e manter o cliente. Cada etapa fazia sentido, cada ação tinha dono, e o CRM era quase um caderno bonito. Pois é, esse tempo acabou.
Hoje, o funil virou um amontoado de zumbis digitais. CRMs falam com ERPs, que falam com chatbots, que falam com planilhas, que falam com ninguém. Plataformas se integram por APIs, mas pessoas não se entendem nem no Slack.
A promessa da automação era libertar as equipes para o estratégico, mas o resultado foi profissionais soterrados por notificações, dashboards e fluxos automáticos que ninguém lembra por que foram criados.
O excesso de ferramentas é o novo desperdício invisível
Toda semana nasce um software prometendo "automatizar o que importa". E toda semana, alguma empresa média decide conectar o ActiveCampaign ao RD Station, via Zapier, para enviar leads do formulário do Typeform direto para o Pipedrive, mas também pro HubSpot (por redundância). O problema? A redundância custa caro.
A empresa começa a acumular dados duplicados, leads clonados e relatórios que nunca batem. O comercial jura que o lead veio do Google Ads. O marketing diz que foi do e-book. O financeiro só quer entender por que estão pagando quatro plataformas que parecem fazer a mesma coisa.
E o gestor, coitado, tenta "analisar os dados", sem perceber que os dados já se revoltaram. No final vem sempre um defensor da bagunça que mensura algum bom resultado, afinal, números estrangulados dizem qualquer coisa.
Há fluxos de automação tão longos que parecem uma novela mexicana. O lead baixa um PDF, recebe um e-mail, depois outro, entra numa jornada, é marcado com uma tag, desmarcado, passa por uma régua de nutrição, cai num remarketing, volta pra régua, e termina ignorando a marca por exaustão. Quem constrói acha lindo, mas duas semanas depois não sabe nem onde começa.
A automação sem propósito cria uma experiência desumana, tanto pro cliente quanto pra equipe. O vendedor não entende mais em que ponto o lead realmente está, o marketing não sabe o que medir e e o consumidor, que deveria ser o centro da jornada, vira apenas um gatilho num sistema que ninguém controla.
Dados sem contexto são só barulho
Empresas estão nadando em dados, mas não sabem o que fazer com eles, e ainda se expõem ao risco de violar leis de proteção de dados que nem conhecem direito. Afinal, a LGPD protege brasileiros, mas o cliente pode estar em Portugal, sob o GDPR, ou na Califórnia, sob o CCPA. Têm dashboards, relatórios, KPIs, heatmaps, pixel, UTM e cookies de sobra, mas não conseguem responder a perguntas básicas:
- Qual canal realmente traz leads qualificados?
- Qual automação reduz o ciclo de vendas?
- Qual conteúdo de fato convence alguém?
Quanto mais dados, menos clareza, porque sem estratégia, tudo é só ruído caro e um falso conforto de que tudo está "automatizado".
Há uma crença perigosa no ar corporativo de que se está automatizado, está sob controle. As equipes se acostumaram a "confiar no sistema", sem perceber que o sistema foi configurado às pressas, em outras circunstâncias, por quem já saiu da empresa há três gestões. É o equivalente digital de um prédio cheio de sensores, mas sem bombeiro. Quando algo pega fogo, ninguém sabe por onde começa o incêndio, aí uma queda de conversão, um lead perdido e um relatório inconsistente é só uma faísca para algo maior.
Estratégia ainda é humana
A automação tem valor, claro. Mas só quando nasce de uma estratégia clara, com propósitos definidos e processos revisados, tudo definido pela equipe da empresa com insights do desenvolvedor. Para quem desenvolve, automatizar sem entender o porquê é como cozinhar sem receita, vai sair algo, mas dificilmente será comestível.
Antes de criar um novo fluxo, integrar mais uma ferramenta ou assinar aquele software "revolucionário" anunciado no Instagram, é hora de perguntar qual problema real isso vai resolver, quem vai monitorar o resultado e o que você ganha (ou perde) se desligar a automação amanhã.
Empresas maduras já entenderam que automação é o meio, não o modelo. E o verdadeiro diferencial competitivo ainda vem de quem pensa, não de quem só conecta APIs.
🧠 O que aprendemos com isso:
- Automação sem estratégia é desperdício. Não é porque dá pra fazer que deveria ser feito.
- Ferramenta demais confunde mais do que ajuda. Menos integrações, mais clareza.
- Dados sem contexto não geram decisões. Informação só tem valor quando ajuda alguém a agir.
- Humanos ainda são essenciais. Estratégia, senso crítico e empatia não se automatizam.



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