Dizem que a ignorância é uma bênção. E no mundo digital, parece ser um plano de carreira.
A história começou com Fulano, um empreendedor simpático, cheio de ideias, mas que tratava tecnologia como mágica. Para ele, a inteligência artificial veio para conceder poderes divinos a meros mortais, bastando algumas ideias do ChatGPT, um som legal naquela IA de áudio, uma foto animada em outra ferramenta, "postar bastante" nas redes sociais e investir em alguns anúncios... pronto, sucesso garantido. Se não desse certo, um tutorial do YouTube ou um guru do TikTok resolveria.
Para Fulano, o algoritmo era uma espécie de divindade moderna que recompensa fé e hashtags. A inteligência artificial, um martelo digital para qualquer tipo de prego.
Durante meses, deu certo. E se deu certo para ele, daria também para todo mundo. Começou a vender consultoria, juntou-se a alguns conhecidos, alugou uma plataforma white-label e começou a fazer dinheiro com públicos carentes em marketing digital, como médicos e advogados, e produzir conteúdo para quem tem pouco filtro digital como religiosos, crianças. Empolgado com o sucesso, cogitava até expandir para donos de pets. Afinal, se cachorro tem perfil no Instagram, por que não um funil de vendas?
Fulano surfava nas ondas do engajamento, colecionava curtidas e seus vídeos com frases motivacionais sobre "inovação disruptiva" eram a sensação da timeline. A empresa crescia sem saber exatamente por quê. Se o cliente perguntava algo, bastava responder qualquer coisa, já que nem ele, nem o cliente, entendiam do assunto. E, no fundo, ele não se sentia responsável por nada do que dizia. Quem o culparia? Internet é terra sem lei.
Mas, como todo milagre digital, o encanto tinha prazo de validade. O servidor do white-label (também criado por um influencer milagreiro digital) perdeu a conexão com o provedor do serviço principal. Bloqueio de IP por infração dos termos. Sem problemas: um novo IP, e mais dois meses funcionando.
O próximo strike foi o bloqueio das contas dos usuários (os clientes de Fulano). Dessa vez, a coisa apertou. Os clientes amargaram prejuízos por falta de comunicação e perda de arquivos importantes.
Enquanto o caos se espalhava, Fulano abriu o grupo do WhatsApp e anunciou: "Gente, o Google está com problemas para se comunicar com o Facebook. Vamos esperar um pouco, o Elon Musk já contatou a Amazon, eles vão resolver tudo quando a Microsoft lançar o próximo Xbox" (ou algo assim).
Três dias depois, percebeu que o problema não era o Google. Era ele. Foi aí que o barco começou a afundar.
Os clientes confiavam em Fulano, e ele confiava nos técnicos que contratou quando começou a sobrar dinheiro. Os técnicos, que, assim como Fulano, eram mais sorridentes do que competentes, confiavam na plataforma white-label, já que nunca haviam desenvolvido uma única linha do produto vendido.
Uma semana sem resolução, os clientes já queimando Fulano nas redes sociais, e a plataforma white-label finalmente anunciou a solução. Mas a tal solução era um patch que veio ceifando os principais diferenciais da ferramenta.
Fulano, por pura ignorância e inocência, nunca havia sido transparente com seus clientes quanto à instabilidade e imprevisibilidade da solução. Teve que publicar um comunicado oficial que deixou os clientes perplexos. Grande parte cancelou. A outra parte foi cancelada por ele mesmo, que encerrou o serviço dois meses depois.
A mina de ouro havia se esgotado. Mas não era um problema, porque Fulano era um empreendedor simpático, cheio de ideias. Logo arrumou outra fonte de milagres.
🧠 O que aprendemos com isso
- Ignorância digital é escalável, até que o primeiro bug cobre o boleto da realidade. O vendedor e o comprador, por estarem ao mesmo pé de conhecimento, se entendem bem, mas quando o caldo entorna, o cliente sempre sai perdendo.
- White-label não substitui conhecimento técnico. Ao contratar uma plataforma, dominar suas funcionalidades e limitações é crucial para fornecer um serviço de qualidade e diferenciado dos demais vendedores da mesma plataforma. Técnicos devem testar e estressar a plataforma com frequência, principalmente quando surgem novas funcionalidades, para descobrir os problemas antes dos clientes e apontar melhorias.
- Transparência é o antivírus da confiança. Vender é bom, mas ignorar os pontos fracos é burrice. Conhecer os pontos críticos do negócio e, pelo menos, incluir nas linhas miúdas é o que salva o negócio em momentos de crise.
- Não há nada de errado em empreender. O conhecimento raso ou a ignorância total permitem uma coragem ímpar, que quando aproveitada para empreender ou influenciar, torna qualquer montanha em mina de ouro.



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