A estratégia era simples: vender cursos de jardinagem online. O site era modesto, carregava rápido, mostrava fotos, vídeos e um botão que dizia "Quero aprender a plantar". Tudo estava bem até o dia em que apareceu o gestor de tráfego iluminado, com sotaque de automação e olhar de quem vive em lançamento perpétuo.
"Você precisa de uma landing page", decretou o homem, como se tivesse descoberto a penicilina. O dono da empresa, impressionado, concordou. Afinal, todo empresário quer estar "no digital", e se o gestor de tráfego — que parece entender de algoritmos, pixels e coisa e tal — diz que é preciso, quem é ele pra questionar?
Três semanas depois, a promessa estava no ar. A página era bonita, cheia de scrolls, parallax, depoimentos, cronômetros e um vídeo de fundo com som ambiente de pássaros. O botão de compra brilhava em degradê laranja, uma obra-prima do entusiasmo.
No desktop, funcionava. No celular, parecia um PowerPoint em coma.
O vídeo não carregava, o botão ficava fora da tela, e o formulário de inscrição exigia CPF, endereço completo e até o nome da mãe, porque, claro, alguém achou que isso ajudava na conversão. O empresário começou a receber mensagens de clientes dizendo "não consigo clicar", "a página trava", "só aparece o topo", e junto com as mensagens o processo manual de venda pelo WhatsApp, explicando o curso, cobrando por PIX. O que era para ser automação, virou irritação.
E aí veio o golpe final: o gestor de tráfego reclamou que “o pixel não estava otimizando”. A culpa, claro, era da plataforma. Ou do iPhone. Ou de Mercúrio retrógrado. Menos da landing page, que pesava 11 MB e abria em 17 segundos no 4G.
A indústria da página que ninguém abre
A verdade é que a landing page virou aqueles totens de loja do marketing digital moderno. Um símbolo de modernidade que, muitas vezes, entrega o oposto: lentidão, abandono e frustração.
As agências empilham templates prontos, plugam um builder (Elementor, Beaver, Bakery, Divi, Thrive...), colam o código do pixel e chamam de "estratégia". E o empresário, seduzido pela promessa de conversão, paga feliz, porque fica bonito, porque parece profissional, porque parece simples de usar, porque parece técnico, porque parece que vai resolver o problema mágico das vendas com um botão.
Mas o que acontece, na prática, é que metade dessas páginas é feita sem olhar pro usuário real. O gestor de tráfego não testa propriamente nos principais navegadores mobile e em diferentes velocidades de conexão, o designer ignora o tempo de carregamento, e o dono do negócio nunca clica no próprio botão de compra.
E o cliente, o humano com o dedo largo, conexão instável e paciência de 3 segundos, desiste de gastar seu dinheiro.
O mito do "se não converte, muda a página"
O argumento clássico vem logo depois: "essa landing não performou, vamos refazer". E lá vai mais um orçamento, mais uma promessa, mais uma chuva de templates com cronômetros piscando.
O problema não é a página. O problema é achar que conversão é uma função estética, e não funcional. Que basta mudar a cor do botão, inverter a ordem dos blocos, rodar um novo criativo. Enquanto isso, o real vilão, a falta de otimização técnica, segue intocado.
A compressão de imagem? Ninguém fez. O script de rastreamento? Duplicado três vezes. O player de vídeo? Embutido direto do YouTube, sem lazy load. O layout? Um Frankenstein de divs aninhadas.
Mas, a culpa cai sobre o coitado do botão, que agora é lilás. Afinal, se a culpa é minha, eu boto em quem eu quiser.
A verdade que ninguém quer admitir
A maioria das empresas não precisa de uma nova landing page. Precisa de um site que funcione. O "site velho" que o gestor de tráfego não quis usar muitas vezes é mais leve, mais rápido e mais confiável que a página feita às pressas em nome da conversão.
O que mata a performance não é a ausência de landing, é o excesso de ego técnico, o desenvolvedor que não fala com o gestor, o gestor que ignora UX, o cliente que quer ver fogos de artifício antes do botão de comprar.
No fim, o que o usuário quer é simplicidade: clicar, pagar, resolver. Um site bem desenvolvido vende mais e vende organicamente por busca, por acesso direto recorrente e por indicação. Mas o mercado ainda prefere vender complexidade.
🧠 O que aprendemos com isso
- Landing page não é solução universal. Ela só funciona quando é tratada como parte de uma estratégia técnica, e não como produto de prateleira.
- Mobile first é lei, não opção. Se a página não funciona em 4G e tela pequena, ela não existe. Pelo celular, 53% dos usuários abandonam o site se ele demorar mais de 3 segundos para carregar, 90% se demorar mais que 5 segundos.
- Performance é UX. Tempo de carregamento, acessibilidade e hierarquia visual convertem mais do que qualquer "gatilho mental". Às vezes, o melhor ajuste é técnico, não estético, e o cliente nem precisa saber que você apenas otimizou o que já existia.
- Bônus: Cuidado com os builders, tipo Elementor.



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