Dr. Fulano era advogado trabalhista, daqueles que ainda confiam mais no cafezinho do que no algoritmo. Depois de meses ouvindo colegas dizerem que "quem não aparece, desaparece" e que advocacia moderna só funciona para quem investe em Google Ads, o doutor, com mais de 20 anos de atuação e um escritório em frente a um grande sindicato, resolveu se digitalizar.
Criou seu primeiro site, contratou o sobrinho micreiro para "dar um gás no marketing do escritório" e lançou sua campanha com entusiasmo juvenil e supervisão zero. Era a combinação perfeita entre tradição jurídica e ousadia tecnológica.
A promessa era simples: Apareça para quem precisa de você. Só que o Google não tem diploma em Direito, e a plataforma não lê o Código de Ética da OAB. O advogado preencheu o formulário com zelo técnico, palavras-chave certeiras, orçamento diário controlado e aquele botão fatal: "Incluir a Rede de Display do Google".
Não fez isso sozinho. Recebeu a ajuda indispensável e profissional de “um especialista do Google Ads para ajudar no sucesso da sua empresa”, uma consultoria sem custo oferecida pela própria Google para "aproveitar ao máximo as campanhas".
Na prática, foi como deixar o lobo trocar a fechadura do galinheiro.
Foi ali, entre um clique e outro, que a tragédia digital começou. Dois meses depois, feliz com os resultados do marketing jurídico e prometendo um celular novo para o sobrinho se alcançasse a meta, o escritório recebeu um e-mail com o título "Comunicado da Comissão de Fiscalização da Publicidade Profissional".
O advogado empalideceu. Não era spam. Era o tipo de mensagem que dá mais medo que intimação judicial. O motivo: seu anúncio, com a frase "Atendimento rápido e especializado em causas trabalhistas", havia aparecido num site de classificados, entre anúncios de vaga de emprego.
Para o algoritmo, tudo fazia sentido. Para a OAB, era mercantilista, o apocalipse da ética da profissão. A autuação veio com tom solene: "O advogado não pode promover captação de clientela, nem associar sua atividade a práticas comerciais". Dr. Fulano jurava inocência, mas o pixel não perdoa.
Depois de receber o e-mail da OAB, o advogado passou a noite revisando cada campo da campanha como quem revisa uma petição de madrugada. Descobriu que o Google havia distribuído o anúncio em dezenas de portais parceiros, inclusive sites de vagas de emprego.
O botão para entregar anúncios na Rede de Display, aquele que o especialista do Google Ads garantiu ser "ótimo para ampliar o alcance", era, na verdade, uma catapulta digital para o inferno ético da advocacia.
Dr. Fulano aprendeu o que muitos colegas ainda ignoram: o Google Ads não é proibido pela OAB. O problema é o contexto. A publicidade jurídica pode informar, mas não pode seduzir. Pode esclarecer, mas não pode prometer. Pode existir, mas não pode parecer um anúncio de Black Friday.
No fim, o caso não gerou punição grave, apenas um susto e uma retratação, mas o advogado aprendeu que os riscos não estão nas más intenções, estão nas escolhas que fazemos sem entender.
🧠 O que aprendemos com isso
- Google Ads não é o vilão, o problema está nas opções. As escolhas certas definem o consumo do orçamento e o alcance do anúncio. Desmarcar a "rede de display" ajuda se sua categoria zela pela imagem da profissão e não confiar no lobo para cuidar do galinheiro ajuda a fazer escolhas mais certas.
- Advogado pode anunciar, mas deve informar, não vender. Fale sobre áreas de atuação e soluções, nunca sobre "resultados" ou "resolução rápida". O público certo não se encontra com cliques aleatórios, mas com planejamento e clareza de posicionamento.
- Nem todo sobrinho é um gestor de tráfego. Ética, técnica e lei andam juntas, especialmente quando o algoritmo não sabe o que é advocacia, consultar um profissional para revisar a campanha é crucial para evitar erros básicos.



Deixar um comentário