Ele sempre chegava antes do sol. Montava a barraca no mesmo canto da feira, em frente à farmácia, anunciando sua presença com o rangido já conhecido das rodas gastas da velha carroça de madeira. Vendia frutas há vinte anos. Não tinha CNPJ, mas tinha confiança. "Anota no caderninho, eu pago depois", e ele anotava. A caderneta, gasta, era seu CRM, só não sabia disso ainda.
O problema começou quando o preço da banana variou tanto num mês que parecia bolsa de valores depois de um tweet de presidente americano. Ele perdeu dinheiro numa semana, ganhou na outra, mas não entendia o porquê. Enquantos seus colegas diziam que "feira é sorte", ele desconfiava que não era bem assim e passou a anotar em um diário suas experiências cotidianas.
O filho, estudante de informática, um dia olhou as anotações do pai e disse: "O senhor quer que eu jogue isso numa? Dá para ver padrão." O feirante de meia-idade, que herdara a profissão do próprio pai, respondeu com o clássico: "Planilha? Isso é coisa de escritório, meu filho, na feira a maior modernidade é WhatsApp e Tiktok."
Mas o filho insistiu. Digitou tudo: datas, produtos, preço pago no Ceasa, preço vendido, clima do dia, sobras. E algo começou a aparecer. Nos dias quentes, a venda de melancia subia. Nos dias nublados, a de banana caía. Quando o time da região jogava, o movimento era menor, mas no dia seguinte, as vendas disparavam, "todo mundo quer comentar o jogo, conversa mais, compra mais", justificava o pai. A intuição virou dado, nascida do conhecimento empírico de um simples feirante.
O filho então criou uma interface simples no Google AppSheet para facilitar a inserção das informações e visualização dos resultados, e o pai se empolgou: passou a anotar tudo com ainda mais precisão, "Hoje fez 34 graus, vendi 32 melancias, sobrou abacate." O aplicativo, ainda improvisado, se conectava a um modelo de linguagem open-source, que transformava cada anotação do feirante em dados estruturados na planilha. Agora, nas mãos do feirante, já apareciam gráficos e indicadores que, em pouco tempo, ele entendia melhor que muito gerente de marketing.
Sem perceber, o feirante tinha criado um modelo de previsão de demanda, totalmente manual, mas incrivelmente eficaz. Ajustou preços conforme temperatura e feriados a partir das sugestões do aplicativo. Parou de perder com fruta encalhada. Começou a comprar melhor e vender no ponto certo.
A clientela notou que a barraca do feirante nunca ficava sem fruta boa e que sempre tinha um preço justo. A concorrência começou a se incomodar, alguns riam e o chamavam de "engenheiro de banana". Mas outros começaram a sondar como ele fazia e se poderia compartilhar algo interessante.
Enquanto o feirante ria a toa, o filho viu oportunidade: "Pai, dá pra transformar isso num negócio. Tipo uma consultoria pra feirante."
No início, parecia absurdo. Consultoria? Feira? Mas o filho criou um pequeno site gratuito: "Engenharia de Bananas – Feira inteligente para vender mais e melhor." Colocaram vídeos explicando como inserir informações no AppSheet. Nada de jargão. Só o feirante, com seu jeito direto e risonho, ensinando como usar o aplicativo e interpretar o dashboard para saber quanto realmente ganhava no final do dia.
O site viralizou entre pequenos comerciantes. Padarias, quitandas e barracas começaram a copiar o modelo. O feirante virou referência.
Um jornal local fez matéria: "Feirante usa tecnologia para prever lucro." O texto caiu nas redes, e logo apareceu o primeiro e-mail com assinatura corporativa: uma grande marca de frutas importadas queria "parceria estratégica".
O contrato prometia patrocínio, banner com o rosto dele, vídeos patrocinados. Em troca, ele teria que usar e recomendar exclusivamente os produtos da marca.
O filho achou que era hora de expandir. A esposa achou arriscado. Mas o feirante, que nunca tinha feito MBA mas entendia de confiança, respondeu: "Se eu fizer isso, filho, o freguês vai achar que só falo bem porque me pagam. Aí acabou a credibilidade. Eu prefiro vender banana que vender minha palavra."
Continuou na feira. Continuou na planilha. Continuou ensinando.
Com o tempo, o filho estruturou a ideia, se juntou a colegas da faculdade para criar um aplicativo mais intuitivo e registrou o projeto como microempresa. Não virou unicórnio, mas se tornou um negócio estável, ajudando centenas de feirantes e outros comerciantes a entender seus números.
Em vez de buscar investimento externo, alavancaram o negócio com os recursos do próprio aplicativo e o esforço dos sócios. Em pouco tempo, apareceram as primeiras propostas de investidores sérios. Depois de serem apresentados no programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios, o negócio finalmente deslanchou.
Convidado para eventos de inovação, o feirante subia ao palco de camisa xadrez, falava sobre Excel e frutas, e deixava a plateia rindo e refletindo.
Em um grande evento, perguntaram qual era o segredo da sua transformação digital. Ele respondeu, sem hesitar: "Eu nem sabia, mas tinha um consultor de tecnologia em casa que me fez parar de achar que tecnologia era frescura e que minhas anotações tinham valor." A resposta veio acompanhada de um olhar fraterno para o filho, sentado na plateia.
Risos, aplausos e uma das frases mais simples e precisas já ditas sobre o potencial de cada pessoa quando recebe incentivo e reconhecimento para usar a tecnologia.
O feirante, que virou símbolo de credibilidade com propósito, encerrou suas atividades na feira para acompanhar o filho na nova empresa de inteligência comercial. A página do aplicativo na internet agora exibe sua frase mais emblemática:
"Dinheiro é muito bom. Mas confiança é fruta que demora a dar e apodrece fácil."
🧠 O que aprendemos com isso
- Tecnologia não é ferramenta, é mentalidade. O feirante não precisou de aplicativo, só de curiosidade e método. O verdadeiro salto digital começa quando alguém decide entender os próprios números.
- Credibilidade é o ativo mais caro. Recusar um contrato lucrativo é raro, mas manter a confiança do público é o que garante longevidade. A marca passa, o nome fica.
- Transformação digital é sobrevivência para quem vive num mercado instável. Dados podem ser organizados com recursos mínimos e funcionam como bússola pra qualquer negócio que depende de precisão (mesmo achando que tudo é "sorte").
- Nem toda inovação precisa escalar. Às vezes, o que o mundo precisa não é de mais uma startup, e sim de mais gente que entende o valor do que já faz bem.



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