Fulano sempre acreditou que ir ao médico era como levar o carro ao mecânico: você descreve um barulho, o especialista identifica o defeito e pronto. Mas essa fantasia desmoronou quando levou o pai a um doutor famoso na cidade, recomendado por ser "muito experiente".
Dr. Beltrano tinha aquele ar de biblioteca viva: jaleco batido, estetoscópio clássico, diplomas amarelados, computador com aviso de cópia não original do Windows e agenda escrita à mão, como se a revolução digital tivesse sido apenas um boato mal contado. Fulano mal começou a explicar a suspeita de pré-diabetes quando o médico desviou para inflação, política e histórias aleatórias sobre um sobrinho que se mudou para o Paraguai. A consulta virou um comentário do Jornal Nacional com estetoscópio.
Quando finalmente falaram de saúde, Dr. Beltrano fez uma careta dramática e decretou, com a firmeza de um profeta improvisado, que milho, batata inglesa e outras coisas aleatórias eram "veneno". Em seguida, iniciou uma revisão sentimental sobre como "no tempo dele tudo era mais simples" e como hoje "tudo faz mal", claramente inspirado por gurus do Instagram ou vídeos sensacionalistas de um de seus grupos de WhatsApp.
O pai piscou duas vezes, tentando entender como sobreviveu 70 anos consumindo alimentos aparentemente mais letais que plutônio. Sem intervalo, sem explicação, sem critério, o médico completou a obra-prima sugerindo fritar ovo em óleo de sardinha enlatada, comer apenas carne de ruminantes e seguir recomendações tão vagas que pareciam retiradas de uma gaveta mental onde guardava certezas de 1987, aquelas que nunca precisaram ser confrontadas pela realidade.
Fulano reconheceu o padrão na hora: o médico era como aquele Windows pirata. Já foi robusto, mas a negligência prolongada o tornou mais vulnerável que uma criança recém-nascida.
Dias depois, tentando compensar o excesso de tradição, Fulano levou o pai a uma médica jovem, recém-saída da especialização, cheia de energia e estudiosa ao extremo. Ela parecia uma API recém-lançada: eficiente, veloz, tecnicamente impecável, porém perigosamente literal e em fase beta.
Para cada pergunta, consultava um aplicativo, uma diretriz internacional ou um painel de meta-análises. Tudo correto, exceto pelo detalhe de que, na vida real, pacientes não se comportam como gráficos de efeito padronizado. Enquanto Dr. Beltrano transformava experiência em dogma, a novata transformava diretriz em bíblia.
Fulano percebeu que tinha diante de si os dois lados da mesma moeda: o excesso de passado e o excesso de manual. Um servidor velho demais para rodar em nuvem. Um sistema beta instável que funciona na teoria e falha na produção. O mais irônico é que ambos sofriam da mesma falha sistêmica.
Movido pela curiosidade de todo bom profissional da tecnologia, Fulano pesquisou os estudos citados pelos dois para justificar suas recomendações. E ali descobriu que a medicina, assim como a tecnologia corporativa, convive confortavelmente com pesquisas frágeis, tortas e estatísticas torturadas.
Ele conhecia esse truque. Em consultoria, ele via empresas tomando decisões milionárias baseadas em estudos com 12 voluntários, análises que ignoravam comorbidades e amostras tão deformadas que qualquer estatístico sério chamaria de piada. Mas esses estudos eram ótimos para virar manchete, pauta de TikTok, guideline apressado e, claro, dogma de consultório.
Fulano riu sozinho ao perceber que o problema não era exclusivo da medicina. Essa convicção vendida como método também aparecia em projetos de consultoria em tecnologia, onde especialistas transformam frameworks em religião e consultores demonizam soluções alheias sem entender contexto, orçamento, maturidade do cliente ou as pessoas envolvidas. Era o velho risco relativo vendido como risco absoluto, embalado em porcentagens infladas sem revelar a base, gráficos sem escala e amostras reprocessadas até o resultado caber na hipótese.
No mundo da tecnologia, tem muito profissional que empurra solução da moda sem estudar o caso, consultor que some depois de plantar uma arquitetura inviável, diagnóstico pré-pronto travestido de método, decisões tomadas exclusivamente por instinto e culpabilização do cliente quando tudo quebra. E o mercado aplaude, porque confunde fluência verbal com competência técnica.
Na medicina, aparentemente, isso não era diferente. Enquanto uns se apoiavam em estudos velhos demais para sobreviver a uma revisão por pares moderna, outros empunhavam pesquisas novas demais para considerar variáveis humanas. Ambos citavam ciência, mas praticavam crenças embaladas em estética científica, talvez uma medicina baseada em "evidências instagramáveis", temperada por convicções enviesadas, filhas diretas do sensacionalismo digital.
Foi então que Fulano buscou um meio-termo: um especialista com 10 a 20 anos de estrada. Alguém ainda com energia para estudar, com casuística real, que escuta, não generaliza e não usa crenças de WhatsApp como framework de saúde. Como bônus, alguém com vida social o bastante para não precisar puxar assunto sobre política no meio da consulta.
Não foi fácil, mas encontrou.
Uma médica que colocou tudo no contexto certo, sem exagero, sem superstição, sem delírio digital. Ela perguntou, analisou, interpretou e não falou de política.
Fulano saiu com uma certeza cristalina que o maior risco não está em médicos velhos ou jovens, nem em tecnologia antiga ou nova. O risco está na combinação clássica que move o mundo moderno: convicção sem evidência, evidência sem contexto e números usados para dar legitimidade a decisões já tomadas.
🧠 O que aprendemos com isso
- Nem velho demais, nem novo demais. Experiência pode virar dogma quando envelhece sem supervisão e novidade pode virar ruído quando aplicada sem critério.
- Números torturados confessam qualquer coisa. Porcentagens sem base são apenas fofocas com ar matemático. Estudos científicos ruins existem porque é barato publicá-los e caro refutá-los, eles geram visibilidade para o pesquisador que nem sempre é desmentida pela mídia.
- Medicina e tecnologia tropeçam pelos mesmos motivos: Excesso de certeza, falta de atualização e incapacidade de questionar o próprio modelo mental. A competência verdadeira nasce entre os extremos, onde técnica encontra discernimento e onde números param de mandar e começam a servir.



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