Existem dias em que o caos digital se disfarça de formalidade. Tudo começa com um e-mail que parece ter saído de um curso rápido de golpes online: remetente gratuito, tom urgente e ameaça velada. "Intimação para audiência de conciliação administrativa", dizia o assunto. Parecia mais um daqueles clássicos truques de phishing, desses que prometem sanções graves e recompensas vagas. Mas o plot twist veio rápido. O órgão consultado confirmou: o e-mail era autêntico. Sim, era o Estado, agindo com a leveza de um usuário do Gmail.
A convocação falava em "sessão de mediação", "regularização profissional" e "apuração preliminar", mas não trazia nenhum número de processo, nenhum protocolo, nenhuma assinatura digital. Apenas uma convocação para comparecimento virtual sob pena de sanções administrativas, cíveis e criminais. E, para completar o enredo tragicômico, o link da reunião não existia. A forma era de fraude, o conteúdo era de coação, e o selo era de autenticidade. Foi o primeiro sinal de que o abuso moderno não chega mascarado, chega sempre timbrado.
Na reunião, a atmosfera era curiosamente pública, "espera mais alguns minutos, tem mais gente para entrar". Empresários, agências e prestadores de serviço, todos reunidos para ouvir um discurso sobre poder de polícia administrativa. A voz do lado de lá da tela falava em fiscalização ampla, registros obrigatórios e penalidades, como se o simples fato de existir uma empresa que comunica já fosse um ato de insubordinação institucional. As justificativas vinham carregadas de juridiquês, citações aleatórias de leis antigas e o tipo de convicção que só o poder mal interpretado é capaz de produzir. O que era para ser um diálogo virou um sermão administrativo, e o que se chamava "educação fiscalizatória" soava mais como "campanha de intimidação coletiva".
Há algo profundamente humano no medo que a linguagem burocrática desperta. Palavras como "intimação" e "Ministério Público" ativam no empresário médio um instinto ancestral de sobrevivência. É o medo da multa, da autuação, do ofício que nunca se encerra. A engenharia social institucional se alimenta disso: autoridade, urgência e confusão. É a versão pública das táticas de golpe, não atoa o Brasil é líder nesse segmento criminal. O e-mail chega com o brasão da República, e a mensagem é simples: você está errado, ainda que não saiba por quê. O objetivo não é informar, é desestabilizar e, no meio da incerteza, qualquer promessa de "regularização" soa como alívio (mesmo que tenha que desembolsar uma pesada anuidade).
E é nesse ponto que a insegurança jurídica brasileira mostra sua verdadeira face. O pequeno empresário vive em permanente estado de sobressalto, cercado por conselhos, sindicatos, normas novas, portarias repentinas, formulários que mudam de formato e taxas que brotam do nada. O país parece ter transformado a burocracia em um ecossistema predatório, onde cada órgão reivindica sua fatia da sobrevivência alheia. E o empresário, sem fluxo de caixa para contratar consultorias especializadas e escritórios de advocacia, precisa sobreviver com um olho no caixa e outro no Diário Oficial. É o retrato de uma selva institucional em que, entre um boleto e uma notificação, o empreendedor mata um leão por dia, rezando para não ser autuado por falta de alvará de caça, torcendo para não cair na lábia dos golpistas e se esquivando entre o crime organizado e o ladrão de galinhas.
Mas o que diferencia poder de abuso é o método. Conselhos e autarquias possuem papel legítimo de fiscalização, mas a legalidade exige limites claros. Um ato administrativo precisa ser formal, motivado e individualizado. Sem protocolo, sem processo e sem motivação específica, o que resta é uma tentativa de impor autoridade pela aparência. A lei 9.784/1999 é clara sobre isso, e a lei 13.869/2019, sobre abuso de autoridade, é ainda mais explícita: coagir alguém, sob pretexto de função pública, a fazer algo que a lei não obriga, é crime. E mesmo quando não chega a tanto, a simples encenação de poder já é suficiente para corroer a legitimidade da instituição.
O problema é que a burocracia brasileira adora o espetáculo da legalidade. Slides com logotipos, citações de artigos e a velha comparação com o DETRAN, um órgão público que todos associam com multa sem chance de defesa. Tudo muito técnico, muito grave e, paradoxalmente, muito vazio. O cidadão escuta, mas não entende. A desinformação vira instrumento de controle e a reunião termina com a sensação de que o erro é sempre seu, e a autarquia, sempre certa.
A melhor defesa contra esse tipo de abuso é, ironicamente, o mesmo instrumento que a modernidade criou para expor o poder: a rastreabilidade. O Estado pode intimidar, mas o digital não perdoa. Tudo deixa rastro. Prints, e-mails, gravações, protocolos. O que era medo vira prova. E prova, quando organizada, vira história; e uma história bem contada é o pesadelo de qualquer estrutura que dependa do sigilo para existir. É por isso que a primeira regra de sobrevivência administrativa é nunca apagar nada. A segunda é não responder sob pressão. E a terceira é lembrar que autoridade legítima não se impõe por e-mail.
Em um ambiente onde golpes e órgãos oficiais competem pela sua caixa de entrada, o discernimento se tornou ferramenta de defesa. Antes de obedecer, verifique. Se não há protocolo, o ato não existe. Se o remetente é gratuito, o órgão perdeu a credibilidade. Se o prazo é absurdo, o processo é suspeito. E se o tom é de ameaça, o melhor advogado é o tempo. O poder que se sustenta em urgência teme o contraditório, e o contraditório é, em última instância, o exercício da cidadania.
Mais importante do que conhecer a lei é entender o jogo psicológico por trás da autoridade. O empresário que entende a diferença entre intimação e convite, entre ato formal e discurso intimidatório, já não é presa fácil. E a autoridade que confunde poder fiscalizatório com poder de coerção descobre, cedo ou tarde, que legitimidade é uma moeda que não se imprime em papel timbrado.
A moral dessa história é simples: o poder só é absoluto quando o medo é recíproco. E quem opera no caos digital precisa aprender a não temer o brasão, mas a falta de transparência que ele pode esconder. O e-mail com tom de golpe não era um crime, mas foi um sintoma de como o Estado, às vezes, precisa reaprender os limites da autoridade. Enquanto isso, resta ao cidadão o exercício mais moderno de todos: duvidar com método e resistir com documentação.
🧠 O que aprendemos com isso
- A memória digital é o escudo do cidadão moderno. Prints valem mais do que desculpas. Aprender a gravar telas, ligações e até conversas é sobrevivência.
- Nem toda notificação oficial é legítima apenas por parecer formal. A legalidade exige processo, protocolo e motivação. Se a intimação passar a usar engenharia social para intimidar o cidadão e se tornar indistinguível de e-mails golpistas, onde esse país vai parar?
- O medo é o instrumento mais eficiente da administração autoritária. O antídoto é informação e frieza. O poder público, quando esquece o princípio da finalidade, transforma fiscalização em coerção.



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