"Você trabalha somente aqui ou atende em casa?", perguntou a cliente à manicure enquanto escolhia a cor que pintaria os pés. A manicure, orgulhosa do seu local de trabalho e já acostumada a responder esse tipo de pergunta, respondeu prontamente: "Sou profissional parceira aqui do salão há cinco anos, meu trabalho é independente, mas eu prefiro atender somente aqui, onde todos me conhecem".
Nada de pitch de empreendedora, nada de "criadora de conteudo" ou influenciadora. Ela era só alguém que fazia unha bem feita, com paciência, sem tirar bifes, num salão de grande renome na cidade.
Ela sabia que suas colegas manicures costumavam fechar a agenda no salão para atendimento residencial de clientes VIPs e outras trabalhavam cada dia em um salão diferente, mas ela preferia ser um ponto seguro para suas clientes, sempre no mesmo lugar, dia sim e outro também. Seu faturamento era o mais alto entre as manicures do salão e os donos atribuiam isso a sua constância, sendo ela a profissional mais confiável para eles.
Um dia, entre uma cliente e outra, o dono do salão reclamou com a agência de marketing digital que "o Google não está trazendo ninguém" e que estava cansado de postar foto de cabelo com filtro rosa e gastar com impulsionamento no Instagram. A manicure ouviu quieta, mas ficou com a frase martelando: "Se ninguém acha o salão, como vão me achar?"
À noite, cansada, mexendo no celular enquanto voltava de ônibus para casa, caiu numa explicação simples sobre perfil de empresa no Google. Não entendeu metade dos termos, mas entendeu o essencial: "Quando alguém procurar por manicure perto de você, você pode aparecer no mapa.". Aquilo bastou.
No dia seguinte, com o salão ainda abrindo, pediu licença ao dono: "Posso criar um Google pra mim, com meu nome, mas com o endereço e telefone daqui?”. Ele pensou dois segundos, com aquela cara de quem não entendeu bem, e respondeu: "Se não for pra dar problema, manda ver querida.". Na hora do almoço ela já criou o perfil no Google Business com o nome dela, colocou os dados do salão, ajeitou a categoria e deu um jeito de tirar foto da fachada com seu humilde celular. Nada profissional. Nada perfeito. Só feito.
A primeira cliente que atendeu na parte da tarde era uma empresária que fazia pés e mãos toda quarta-feira no mesmo horário. Já tinham intimidade e ela pediu: "Se tiver um tempinho, a senhora pode deixar uma avaliação no Google?". Ela falou com tanto medo na voz que a cliente riu, dizendo que faria assim que as mãos secassem, e complementou "Você precisa melhorar sua abordagem. Seria melhor se você condicionasse a avaliação somente se a cliente gostou muito do seu trabalho". Pegou sua bolsa, se despediu e saiu.
A manicure ficou pensando e tentando entender o que a empresária havia dito. Na próxima cliente a abordagem já foi diferente: "Se você gostou muito do atendimento, você poderia deixar uma avaliação no Google? Ajuda bastante. Mas só se gostou muito mesmo, tá?”.
Dessa vez o medo ainda estava em sua voz, mas fez aquele pedido com tanta sinceridade que a cliente abriu o celular ali mesmo e escreveu um textão. Cinco estrelas.
Ela repetiu isso, com mais calma, por meses. Não implorava. Não forçava. Pedia. Sempre com a mesma frase: "Só se tiver gostado muito.". O resultado foi um perfil com poucas, mas ótimas avaliações, cheias de elogios longos.
Aos poucos, começaram a aparecer clientes novas: "Te achei no Google, procurei manicure perto de mim.". Simples assim. Nada de funil, nada de tráfego pago. Só estar disponível no lugar certo. Um dia, uma dessas clientes comentou: "Você devia postar mais seu trabalho, é muito bom e diferente."
A manicure travou. Rede social, pra ela, era meme, família brigando em grupo e figurinha de bom dia.
Mesmo assim, começou pela parte que já tinha: as próprias clientes. Terminava o atendimento, pegava o celular, tirava fotos das unhas de perto, em boa luz, e mandava no WhatsApp: "Olha, ficou linda. Se você quiser postar junto com sua avaliação no Google, pode usar essa foto. Mas só se você tiver amado, tá?"
Algumas não postavam. Outras postavam e elogiavam. Outras começaram a marcar a manicure nos stories (com fotos melhores, feitas seus celulares topo de linha). E cada foto virava prova viva de um trabalho honesto, ou como dizem os marketeiros, "prova social". Não era feed perfeito. Era vida real, com mão de gente normal, com ou sem cutícula, com brilho na unha, artes especiais ou uma simples cor sólida.
Com o tempo, o dono do salão se acostumou a ver gente nova entrando com celular na mão: "Oi, é aqui mesmo a manicure das avaliações boas?". Ele resmungava, meio com ciúme, meio orgulhoso.
Outro dia ela atendeu uma influenciadora digital que seria madrinha do casamento da irmã e estava transmitindo tudo ao vivo, era o seu "Dia de Princesa", e queria compartilhar com todos seus seguidores.
Mais uma vez, na volta para casa, a manicure pegou seu celular e começou a pesquisar sobre lives, Reels do Instagram, YouTube Shorts, Tiktok, privacidade, celulares com melhores câmeras. Esse era um salto muito grande para ela, mas gostou de umas lives asiáticas de food trucks preparando comida e servindo para seus clientes.
Quando se sentiu um pouco mais segura com o assunto, comprou um celular novo e outra coisa para o dono do salão: "Posso transmitir ao vivo alguns atendimentos? Só mostrando a unha, sem aparecer rosto, nada de conversa íntima. É pro YouTube, aqueles vídeos curtos.".
Dessa vez o dono ficou apreensivo, mas ele já estava se beneficiando com os serviços adicionais dos clientes da manicure, então autorizou: "Se não atrapalhar e não mostrar ninguém sem autorização, pode, só que se a internet ficar lenta coloca o seu 3G!"
Ela improvisou um suporte com um pouco de fita adesiva, perguntou para cliente se podia gravar, ligou o Shorts, enquadrou só a mão da cliente e começou a trabalhar. Sem edição, sem música da moda, sem dancinha. Era só o som da lixa, o brilho do esmalte, o foco na técnica.
Dias depois já aprendeu a recortar os momentos interessantes como a transformação da unha comida em unha bonita, o detalhe de um desenho, a aplicação de uma cor diferente. Jogou esses cortes no Reels e no TikTok.
Pela primeira vez, viu número que não cabia em uma mão com esmalte: milhares de visualizações. Gente perguntando cor, marca, tipo de pincel. Comentários de outros estados. E alguns, claro, com a velha arrogância do mercado: "Isso aí eu faço melhor em casa."
Internet sendo internet.
As plataformas, que não têm vergonha nenhuma da micharia que pagam, começaram a pagar alguns trocados pelos conteúdos. No começo, era valor de lanche. Depois virou valor de conta de luz. Em alguns meses, somando o que vinha do TikTok, dos Shorts e de pequenas parcerias, o total passou a superar o que ela ganhava em um dia.
No TikTok, uma loja virtual de cosméticos ofereceu comissão por vendas de produtos de beleza. Nada glamouroso: link, cupom, vídeo mostrando como aplicar um óleo, um creme, um fortalecedor. Ela fez do jeito dela: sem prometer milagre, sem dizer que "vai mudar sua vida", só explicando o que de fato aquele produto fazia.
Com honestidade, as vendas vieram. Nada de mansão, carro importado ou "larguei tudo pra viver de internet". Mas, pela primeira vez, ela viu a ideia estranha de "dinheiro caindo enquanto dorme" quase funcionando. Quase, porque dormir mesmo, entre conteúdo, agenda e família, ela dormia pouco.
Um dia, o telefone do salão tocou diferente. Não era cliente pedindo horário, era produção de programa de TV local: "Queremos convidar a manicure que viralizou para participar de um quadro e fazer unhas de algumas convidadas.". Ela achou que era trote. O dono do salão quase desligou na cara da produtora. Mas era real.
Foi, tremendo e com o cabelo feito pelo dono do salão e a maquiagem pela sua amiga makeup expert, tudo cortesia. Fez as unhas de duas famosas regionais, sorriu sem forçar, explicou o básico sobre cuidado com mão, falou de como começou com Google e pedindo avaliação pelo WhatsApp. Não chorou, não fez discurso de superação. Não precisava.
Depois da TV, veio o lado escuro do mercado, mas com camiseta colorida e promessa grande. Empresas de produtos do tipo "crie sua própria marca" apareceram prometendo poder ter sua própria linha de esmaltes, com seu nome. "É só um pequeno investimento inicial e divulgar, nós enviamos para todo o Brasil. Sucesso garantido."
A proposta vinha com PDF bonito, planilha otimista e cláusula que jogava todo risco no colo dela.
Por sorte, em casa, tinha gente desconfiada. Familiar que entende de conta, amigo que viu outros caírem em cilada parecida e clientes que não opinavam, mas também não concordavam. Ela ouviu o conselho que muita gente ignora: "Se o risco é todo seu e o ganho é quase todo deles, isso não é parceria, é armadilha."
Recusou todas ofertas com a narrativa "do zero ao milhão".
Pouco tempo depois, uma grande marca de esmaltes entrou em contato, com tom bem diferente: "Vimos sua forma de trabalhar, sua fidelidade aos clientes e falamos com o dono do salão. Queremos desenvolver uma linha em conjunto com você, com suporte, equipe e transparência. Você será uma das nossas embaixadoras!"
Dessa vez, veio contrato com advogado, suporte de marketing, nada de estoque escondido no porão da casa da manicure ou produto de procedência duvidosa carregando seu nome. Era cobranding de verdade, em que ela emprestava nome, olhar técnico e credibilidade, não só audiência.
Ela aceitou. Mas manteve a cadeira dela no salão. Continuou atendendo, olhar atento, mesma frase de sempre: "Se você gostou muito, me marca lá e deixa uma avaliação pra mim no Google. Só se tiver gostado muito, tá?"
High ticket, agora, era o que vinha paralelo: workshops presenciais para outras manicures, consultorias de agenda, conteúdo sobre higiene e biossegurança, participação em eventos da marca e até palestra como influenciadora de sucesso. O salão, que lá atrás deixava "usar o endereço no Google", virou base da história toda e sua história replicada por mais profissionais.
Enquanto o mercado vende a narrativa de largar tudo, romper com o passado e virar "sua própria marca", a manicure fez o contrário: subiu, mas sem sair do chão. Não rompeu com o salão, não enganou cliente, não inventou verdade paralela.
🧠 O que aprendemos com isso
- Presença local ainda é ouro digital. Google Business bem cuidado, com poucas avaliações sinceras, vale mais que feed perfeito sem prova real. Especialmente para serviço local, onde o Google Maps e a reputação fazem metade do trabalho.
- Conteúdo e serviço não precisam brigar. Ela não "virou influenciadora" abandonando o trabalho; usou conteúdo como extensão do serviço, mostrando o que já fazia bem. Não é uma nova profissão, é uma camada a mais da mesma.
- Atalhos brilhantes são, quase sempre, armadilha. Linhas whitelabel e oportunidades private label com risco todo de um lado e ganho do outro é clássico. Sempre avaliar com cuidado os riscos e lucros, e no caso de medicina, saúde e cosméticos, ter certeza da procedência.
- Lealdade também gera lucro. Ficar no salão, reconhecer o espaço, combinar agenda e respeitar clientes antigos parece ingênuo para alguns. Mas, no longo prazo, é justamente isso que constrói uma história confiável o suficiente para atrair uma grande marca.
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