Você resolve investir em um novo site ou em uma landing page moderna. O desenvolvedor freelancer fala que vai criar um site no WordPress, com Elementor, porque fica fácil para você mesmo alterar. O gestor de tráfego apoia. O designer aplaude. Todo mundo concorda, afinal, fica profissional e é rápido de fazer. Rápido pra quem faz, claro. Porque pra quem acessa, é outra história.
A página era uma espécie de aquário digital: transparente, reluzente e completamente dependente de oxigênio técnico. Cada botão brilha, cada bloco se move, cada banner tem sombra e degradê. No desktop, uma pintura. No celular, uma prova de paciência.
É aqui que mora o verdadeiro drama: os construtores de página do tipo Elementor, Beaver, WPBakery, Divi, Thrive, e tantos outros prometem liberdade criativa, mas entregam um código inchado. Por trás de um layout aparentemente leve, o navegador carrega uma montanha de código aninhado, como se cada parágrafo precisasse de um container próprio. Uma landing de dez blocos visuais pode ter facilmente três mil nós no DOM. Isso faz o navegador renderizar e recalcular o layout a cada gesto do usuário, especialmente no scroll do celular, quando o processador já está suando para exibir o degradê do botão.
Enquanto o designer comemora o pixel perfeito, o Chrome trava. E o usuário, claro, desiste.
O peso não vem só do HTML. Cada widget injeta seu próprio pacote de CSS e JavaScript, às vezes duplicado, às vezes com dependências inteiras do jQuery que o tema já trazia. Em segundos, a página vira um campo minado de render-blocking scripts. É como se cada botão de "comprar" carregasse seu próprio universo paralelo. O First Contentful Paint vira um suspiro demorado, o CLS dispara, e o clique no mobile acontece com atraso suficiente pra perder a paciência e a venda.
As imagens, então, são um show à parte. O banner principal é um PNG de 3 MB, a foto de fundo do botão vem em alta resolução e sem compressão, e ninguém lembra que o usuário não precisa enxergar os poros do modelo. Pior: quase sempre sem lazy load, o navegador baixa tudo de uma vez, mesmo o que está abaixo da dobra. Cada rolagem é uma requisição nova.
E se tiver vídeo, prepare o velório da performance. Um único iframe do YouTube puxa meio mega de scripts antes mesmo de alguém apertar "play". Com dois vídeos, a landing já virou um desfile de requests desnecessárias. Tudo poderia ser resolvido com um placeholder simples e um player leve, mas o ego do design ou preguiça do programador não deixa: "precisamos que o vídeo toque sozinho". Pois é. Ele toca, e mata a conexão junto. No seu computador gamer, com monitor de 27", internet de fibra, Chrome atualizado e nenhum outro site aberto, funcionou, né?
No meio dessa bagunça, entra o festival de pixels: Google Ads, Meta, Hotjar, RD Station, Clarity. Cada um com seu script, todos brigando pra medir o mesmo evento. E ninguém lembra de verificar se há duplicidade. Às vezes, há três pixels rastreando a mesma compra e outro bloqueando o carregamento do botão. O resultado? Um painel de anúncios confuso, dados distorcidos e, claro, a culpa atribuída à "falta de verba" ou "falta de tempo".
Pra fechar o pacote, vem o golpe da otimização automática. O empresário instala três plugins de cache — WP Rocket, LiteSpeed, Autoptimize — achando que vai acelerar tudo. O que acontece é o contrário: eles minificam o mesmo CSS, empilham cache de versões diferentes e quebram a renderização. No mobile, o visitante vê o layout antigo com o conteúdo novo, o botão desaparece, e o lead também.
E quando nada mais ajuda, alguém sugere "mudar de servidor". Mas o site está num plano de R$ 29,90 por mês, rodando PHP desatualizado num compartilhado com 2000 sites. Latência de 800ms, sem CDN, sem cache de objeto. Mesmo a página mais otimizada do mundo não sobrevive a isso.
O problema técnico é grande, mas o humano é maior. Ninguém testa de verdade. A aprovação é feita num dispositivo flagship da Samsung ou Apple, ao lado do roteador Wifi, com três dedadas rápidas para fazer o scrool. Ninguém abre um Android de entrada ou Safari antigo, nem em conexão 3G da rua, nem com o teclado virtual ocupando metade da tela. A experiência real do usuário é um território inexplorado, e é justamente onde a conversão morre em silêncio. O botão "Comprar agora" fica escondido sob a barra de navegação, e a conversão morre discretamente, sem alarde, como um pacote perdido no correio.
Autópsia dos builders
Os builders não são o problema, o problema está no abuso deles e na falta de conhecimento técnico. Usados com critério, são ferramentas fantásticas. Usados como atalho por designers, marketeiros ou o próprio empresário, são bombas de lentidão com cronômetro embutido.
O mercado adora a promessa de "liberdade criativa", mas esquece que liberdade sem limite vira bagunça. O segredo é saber quando parar de arrastar blocos e começar a entender o que o código está fazendo. Porque no final, quem converte não é o degradê do botão, é a experiência que funciona.
🧠 O que aprendemos com isso
- Performance é invisível até quebrar. Quando o site trava, o usuário não culpa o builder, ele vai embora.
- Cada elemento de interface tem um custo. Renderizar também consome recurso, e o celular do cliente na maioria das vezes não é um MacBook de última geração ou um smartphone flagship.
- Plugins não compensam arquitetura ruim. Cache, minificação e CDN são curativos, não milagres.
- Testar é parte do design. Se não abrir no celular comum, o "projeto de conversão" é só um slide bonito.



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