Tudo começou como uma final de Copa. Reuniões diárias, apresentações com música épica, PowerPoints com promessas de recorde de vendas e planilhas coloridas que pareciam arte contemporânea. A loja virtual de eletrônicos estava pronta para a Black Friday das Black Fridays. Tudo indicava sucesso, até que começou...
A marca que quis ser criativa demais
Tudo começou com uma piada interna.
O time de marketing, eufórico, decidiu brincar com o nome do produto. Era uma frase cheia de trocadilhos técnicos e humor de bastidor, aquele tipo de coisa que só quem trabalha lá entende.
A diretora achou genial, o estagiário riu por reflexo, e ninguém mais teve coragem de dizer "não tá muito claro". Publicaram em todas as redes sociais. Afinal, em véspera de Black Friday, vale tudo.
Minutos depois, os comentários começaram: "Não entendi", "Isso é ironia?", "Vocês tão zoando o concorrente?". Um blogueiro tech até fez um vídeo teorizando que a marca estava "fazendo uma crítica social disfarçada".
Enquanto o time comemorava o engajamento, a confusão tomava conta. O público não sabia se era promoção, protesto ou performance artística. E a equipe de atendimento passou o dia explicando a piada, o que, claro, matou o humor de vez.
O anúncio que levava pra página errada
Todos sabem que quem precisa explicar a piada, já perdeu o público, mas se desenrolava a história ninguém parou para testar o link da ação no dia seguinte. Às 23:59 da quinta-feira, os anúncios foram ao ar.
O banner principal dizia "Clique aqui e garanta até 80% de desconto!". Ousado. Parecia tudo certo, até o tráfego explodir e a conversão permanecer em zero.
Depois de uma hora e meia de pânico, alguém percebeu: o link levava para a página de de um produto fora de estoque desde julho. Milhares de acessos, poucas compras, algumas reclamações de Black Fraude e o orçamento evaporado do Google Ads e Meta Ads.
Só mais um pequeno percalço naquela Black Friday, era só corrigir o link e começar a faturar alto. Todos estavam de plantão naquela madrugada, prontos para qualquer parada.
O botão "comprar" que sumiu no celular
O novo design do site era uma obra de arte, todo preto e branco, um tema construído especialmente para a data especial. O botão de "Comprar" verde fluorescente chamava a atenção no computador e ficava logo acima do novo banner de "Frete 100% BFF", que pulava quando passava o mouse em cima (outra piada interna).
No mobile, por sua vez, o novo banner cobria exatamente o botão de compra.
Usuários rolavam a tela pra cima e pra baixo, como se houvesse um segredo escondido. Alguns achavam que era uma "promoção misteriosa", outros achavam que a compra era por convite. Alguns poucos sortudos, ao tocar no banner, faziam ele pular e viam o botão. Parecia um jogo divertido, o movimento mais rápido garantia o produto.
Vendas acontecendo e ninguém pensou que poderia haver algo de errado, até uma cliente mandar mensagem para o suporte: "Adorei o design, mas como é que compra?"
O time de desenvolvimento defendeu o projeto com unhas e Figma: "No nosso protótipo tava funcionando! Eu testei no Safari e no meu Macbook.".
Erro corrigido às 4 horas da manhã, mas as vendas não subiam. "Você corrigiu e testou, certo?", perguntou o dono da loja ao desenvolvedor. "Sim, mas tem o cache, o CDN… tem que esperar”. Enquanto o chefe fazia cara de não estar entendendo, outro desenvolvedor, mais experiente, tomou o controle, limpou o cache e incluiu um parâmetro a mais na URL do arquivo de CSS para garantir que tudo funcionaria.
O cupom duplicado
Já era manhã de sexta-feira, os estoques estavam cheios e algo precisava ser feito para compensar o tempo perdido. O marketing teve a ideia de um cupom de compre dois e ganhe um "fridayroso". Isso geraria mais tráfego e vendas, já que os clientes precisariam buscar um segundo interessado no mesmo produto.
Quando o cupom começou a funcionar, foi um alívio. Finalmente algo estava certo. Mas o sistema de automação tinha um senso de humor peculiar: aplicava o desconto duas vezes.
Quem colocava dois produtos no carrinho ganhava 60% de desconto e um brinde invisível: o desespero do financeiro. O time comemorava as primeiras vendas quando perceberam que estavam vendendo notebook a preço de mousepad.
Quando o bug foi descoberto, clientes orgulhosos já postavam no Twitter: "Nunca vi uma promoção de black friday assim!". Viralizou e a hashtag #BugFriday dominou os trending topics.
Desativaram o cupom, se desculparam, e prosseguiram. Muita gente ainda nem tomou o café da manhã.
O programador que quis "ajustar um detalhe"
Eram 11 horas. Apesar dos acontecimentos, o site estava bombando, vendendo como nunca, mas respirando por aparelhos... Eles não estavam preparados para o tráfego da Black Friday. Depois de tantas viralizações dos erros, todos estavam entrando para testar erros nas promoções.
O desenvolvedor, tomado por um impulso heroico, decidiu "melhorar a performance do banco de dados". "É só um ajuste pequeno, coisa rápida", disse ele. Mas quem é da área de tecnologia já deveria saber que "pequeno" e "rápido" são sinônimos de tragédia.
Fez o commit, subiu o código, e o servidor respondeu: silêncio. O site caiu com elegância — sem log, sem aviso, sem piedade.
O Slack dos desenvolvedores virou um campo de guerra. "Rollback agora!", "Quem aprovou o deploy?", "Por que em produção?", "Por quê, Fulano?".
Vinte minutos depois, o site da loja estava no ar. Mais rápido? Talvez. Mais tenso? Com certeza. Fulano ouviria "rollback" em seus sonhos até o Natal.
O suporte que travou no WhatsApp
Enquanto tudo isso acontecia, o suporte tentava apagar incêndios pelo WhatsApp e por e-mail. O sistema, totalmente integrado com chatbot e CRM, prometia um fluxo automático impecável, com atendimento por IA. Em teoria, seria o atendimento do futuro. Na prática, foi um episódio de ficção científica mal calibrado.
O bot do WhatsApp, equipado com a inteligência do ChatGPT, começou a agir por conta própria: oferecia descontos milagrosos, criava cupons que não existiam e, em alguns casos, recomendava produtos de concorrentes.
Um cliente chegou a receber a mensagem: "Você já considerou o modelo da outra marca? Está com ótimo custo-benefício.", o problema era que a outra marca não era vendida pela loja.
O time de suporte precisou desativar o bot às pressas, o que, ironicamente, era algo a ser feito de qualquer maneira porque o volume de mensagens era tão alto que o sistema travou num loop eterno de "Estamos com alta demanda, tente novamente mais tarde.".
Os clientes liam, esperavam e mandavam de novo. O sistema respondia a mesma coisa. Era como gritar no meio de um incêndio e receber uma resposta automática de um bombeiro dizendo "Está pegando fogo!".
No fim, tudo deu certo — ou quase.
Apesar do caos, dos bugs e do bot rebelde oferecendo produtos da concorrência, a loja vendeu como nunca. Foi, oficialmente, a melhor Black Friday de todos os anos.
Mas os estoques... continuavam lá, firmes, olhando para a equipe como quem diz: "Agora é com vocês.".
No sábado, o chefe enviou um vídeo para o grupo da equipe com a serenidade de quem sobreviveu a um apocalipse digital.
Respirou fundo, olhou para a câmera e começou seu discurso, com um leve sorriso cansado: "Pelo menos agora a gente tá pronto pra Cyber Monday."
🧠 O que aprendemos com isso
- Criatividade sem contexto é só barulho bem produzido. Se o público precisa decifrar a campanha, não é marketing, é charada corporativa.
- Automação não substitui bom senso. IA é ótima pra responder rápido, mas péssima pra entender sarcasmo e política comercial.
- O botão "comprar" é mais importante que tudo. Design bonito não paga boleto, mas conversão paga. Testar a interface em dispositivos antigos e diversos navegadores é crucial para qualquer implementação.
- Nunca subestime o poder de testado. Testar link antes de publicar a campanha é o equivalente digital de "olhar pros dois lados antes de atravessar a rua". Estabilidade é o verdadeiro luxo do e-commerce, sempre perguntar se algo foi testado antes de fazer o deploy em produção.



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